01
fev
Porque o acordo entre Cosan e Shell é importante
Hoje pela manhã, antes da abertura da bolsa de valores a Cosan e a Shell anunciaram um acordo de associação no Brasil (mas com reflexos em outros países) com valor estimado em US$ 12 bilhões. É fato histórico para a história da energia mundial. Pela primeira vez na história, uma grande empresa de petróleo privada entra no mercado de biocombustíveis em larga escala, com operações em andamento.
Pode parecer apenas mais um negócio para a Shell – e realmente o valor de US$ 12 bilhões é algo relativamente pequeno para a empresa que fatura centenas de bilhões de dólares por ano. Mas ele representa uma empresa que foi criada mais como uma trading de petróleo do que como uma exploradora – foi a Shell que introduziu o conceito de petroleiro, mudando para sempre o negócio de petróleo ao redor do mundo.
A título de curiosidade vale lembrar que o nome do petroleiro era Murex (Wikipedia), nome de uma espécie de um molusco, ou seja, de uma espécie de concha. A escolha de um nome de concha deveu-se ao fato de que o pai dos irmãos – Samuel Samuel e Marcus Samuel – que fundaram a empresa tinha um negócio de importar conchas para colecionadores. Daí a origem do nome da companhia.
Mas o fato de uma grande petrolífera entrar de cabeça no mercado de biocombustíveis é muito relevante por vários motivos.
:: O primeiro é este fato, pela primeira vez uma major entrar em uma companhia que produz bilhões de litros de etanol por ano e tem um plano de expansão agressivo.
:: O segundo é que como uma das maiores empresas de petróleo do mundo, com presença em cerca de 170 países vai possibilitar a expansão do negócio ao redor do mundo.
:: Terceiro porque o comando desta nova empresa vai ficar com o atual presidente do Conselho de Administração da Cosan, Rubens Ometto.
:: Quarto porque mostra que as grandes petrolíferas finalmente se renderam aos biocombustíveis, depois de décadas de resistência.
:: Quinto porque mostra que o etanol brasileiro, feito da cana, é dentro do prazo de prospecção visível o mais competitivo dos biocombustíveis.
:: Sexto porque nos termos da parceria a Shell entrou com 50% da Iogen e 14% da Codexis, duas empresas que pesquisam novas tecnologias para produção de biocombustíveis, principalmente pela rota enzimática (vista por muitos especialistas como a mais interessante do ponto de vista financeiro e científico). Veja uma animação sobre a tecnologia da Codexis.
Ambas (assim como outras empresas concorrentes) estão usando a biotecnologia (leia mais sobre a importância da biotecnologia para a energia), incluindo a transgenia, como forma de gerar novas gerações de biocombustíveis, incluindo o etanol celulósico. Mas o fato é que esta nova geração está evoluindo rapidamente para outros processos como a produção de diesel, gasolina e outros produtos químicos.
Ou seja, este é ponto que altera toda a lógica global atual da cadeia de produção de combustíveis líquidos baseados no petróleo. Ao invés de grandes refinarias que precisam ser alimentadas com petróleo, devem existir um número muito maior de pequenas biorefinarias que poderão ser alimentadas com diferentes matérias-primas. As matérias-primas serão definidas como as mais adequadas para o local, o que facilita e muito montar uma operação com menor impacto ambiental.
A Iogen, por exemplo, produz em uma planta piloto, desde 2004, etanol a partir da palha de trigo. No ano passado, a produção da empresa mais do que dobrou, embora ainda seja pequena, mesmo para os padrões de uma usina de açúcar e álcool moderna, que, por sua vez, é algumas vezes menor do que uma refinaria de petróleo. Para se ter uma ideia no no Brasil existem menos de 20 refinarias e mais de 400 usinas de açúcar e álcool. Entre as parceiras da Iogen estão a própria Shell, o Goldman Sachs, a Volkswagen e o governo do Canadá (onde a empresa está sediada).
Em suma, ao contrário de grandes fusões, a Cosan e a Shell não é mera união de forças para ter mais poder no mercado (embora ela seja muito importante para o mercado brasileiro de combustíveis por isso também). Ela é uma parte do futuro da energia de baixo carbono para transportes. Uma parte porque outras tecnologias irão co-existir como os carros híbridos e elétricos e, durante um bom tempo ainda, o próprio petróleo.
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Tags: Agricultura, aquecimento global, biotecnologia, brasil, cana-de-açúcar, carbono, carro elétrico, Codexis, Cosan, etanol, Iogen, mudança climática, renováveis, Shell, transgênicos
Este post foi publicado segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 às 12:49 e colocado na categoria Geral. Você pode seguir os comentários à este post pelo RSS 2.0 feed. Você também pode deixar um comentário abaixo. Pinging não é possível neste post.