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O “abandono paulatino dos combustíveis fósseis” foi naturalmente vetado por causa do pré-sal
José Goldemberg entende de energia. E entende muito dos efeitos da energia sobre a sociedade. Hoje, ele soltou a frase acima durante uma entrevista distribuída pela assessoria de comunicação da Fecomercio, onde ele é presidente do Conselho de Estudos Ambientais. É de se pensar.
Abaixo, a íntegra da entrevista distribuída pela Assessoria de Imprensa da Fecomercio:
Qual a opinião do senhor sobre a lei de Mudanças Climáticas?
Goldemberg – Um dos problemas sérios é que a lei diz que é voluntária e acaba ficando dúvida sobre o que significa ser voluntária. Na linguagem da lei, a decisão voluntária significa que as pessoas só vão reduzir a emissão de poluentes voluntariamente. Esse aspecto é muito ruim, já que não é da natureza da legislação brasileira ter lei voluntária. No país ou tem lei ou não tem.
Entre os pontos mais polêmicos da lei de Mudanças Climáticas está o veto ao “abandono paulatino dos combustíveis fósseis”. No momento atual, quando muitos países procuram outras soluções energéticas, tais como carros elétricos ou o próprio etanol brasileiro, não lhe parece que o Brasil deposita muita esperança no pré-sal?
Goldemberg – O “abandono paulatino dos combustíveis fósseis” foi naturalmente vetado por causa do pré-sal. Com isso, enquanto outros países estão no caminho de reduzir os combustíveis fósseis, o Brasil está correndo risco de andar na contramão da história. A China, por exemplo, está expandindo muito rapidamente a produção de redes elétricas – usando energia eólica e solar – e comprometendo-se a abandonar o carvão (poluente), que é sua principal fonte de energia.
Claro que se espera que o pré-sal gere empregos e desenvolvimento para o País, mas os investimentos nesse setor não são, de alguma forma, contraditórios com os estímulos ao uso de energia limpa e renovável? Como poderíamos conciliar as duas realidades?
Goldemberg – A esperança de que o pré-sal gere empregos e desenvolvimento para o país é contraditória com os estímulos ao uso de energia limpa e renovável e não há como conciliar as duas realidades. A única alternativa é exportar o petróleo do pré-sal, apesar de que a própria exploração da camada pré-sal já gera gases poluentes.
São Paulo foi o primeiro Estado a aprovar uma lei própria sobre as mudanças climáticas. Ela prevê uma redução de 20% na quantidade de gases de efeito estufa emitidos em 2020, se comparado a 2005. Alguns dos principais problemas no Estado são: a poluição causada pelos veículos na capital e a queima da palha da cana-de-açúcar, que é produzida em larga escala no interior. Como o senhor vê esse cenário e qual a importância de programas governamentais, como o de inspeção veicular ambiental?
Goldemberg – É importantíssimo que o programa de inspeção veicular continue em São Paulo. Os consumidores devem levar a sério essa inspeção. Já quanto à cana-de-açúcar, é um problema que está sendo resolvido. Hoje, a colheita da cana, após a sua queimada, está sendo substituída pela colheita mecanizada, que colhe a cana crua e evita a emissão de gases poluentes. Dentro de quatro anos, a queima da cana e da palha da cana-de-açúcar será totalmente eliminada.
O Governo Federal pretende publicar um decreto que especificará a contribuição de cada setor da economia no corte de emissões de poluentes. Como o comércio poderia contribuir para a redução das emissões?
Goldemberg – Acho muito positiva a definição de redução para cada setor. No lado do comércio, é preciso conscientização. Grandes redes de supermercados, como Pão de Açúcar e Wal-Mart, por exemplo, deixaram de comprar carne que tenham origem em área de desmatamento.
A Copa de 2014 e as Olimpíadas em 2016 vão gerar grandes investimentos, além de consumo de recursos como água, combustível e eletricidade. Como as empresas devem se preparar para crescer sem agredir o meio ambiente?
Goldemberg – A Copa e as Olimpíadas são um problema sério. Durante esses jogos vão aumentar o consumo e a vulnerabilidade do setor elétrico. Para que isso não ocorra é preciso mais produção de energia por meios que não dependam das mudanças climáticas. Os preparativos para a Copa estão devagar é isso é preocupante. Imagine um apagão durante a disputa dos jogos principais.
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Tags: aquecimento global, brasil, cana-de-açúcar, emissões, mudança climática, renováveis, sustentabilidade
Este post foi publicado terça-feira, 26 de janeiro de 2010 às 18:46 e colocado na categoria Geral. Você pode seguir os comentários à este post pelo RSS 2.0 feed. Você também pode deixar um comentário abaixo. Pinging não é possível neste post.