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nov

Greenpeace entra no Febeapá do Apagão


Uma estimativa grosseira indica que a quantidade de bobagens que estão sendo ditas a respeito do apagão passará, em breve, o número de pessoas que ficou sem luz durante o blecaute. É o que estamos chamando aqui de Febeapá (Festival de Besteiras que Assola o País) do Apagão. O termo Febeapá foi cunhado pelo grande jornalista e cronista Sergio Porto, conhecido pelos seus textos de humor onde assinava como Stanislaw Ponte Preta.

Enquanto a imprensa é surpreendida pelo fato de que um raio poder causar danos de tais proporções – mesmo isto tendo acontecido ao menos duas vezes em proporções similares anteriormente – o governo dá uma de beque de várzea e tenta a todo custo colocar a bola para a lateral.

Mas duas besteiras não podemos deixar passar em branco. A primeira é do respeitado e – na minha modesta opinião – competente jornalista e apresentador Boris Casoy, que se mostrou absolutamente surpreso na quarta com o raio. E disse que a tempestade devia ter sido um tsunami (ironias à parte, foi um péssima comparação).

Mas, a besteira de Casoy é menor do que a que o Greenpeace resolveu divulgar ontem em artigo do coordenador da campanha de energias renováveis, Ricardo Baitelo. Para quem quiser ler, a íntegra está no pé deste post.

Baitelo diz que: “Sistemas de geração e transmissão menores e distribuídos pelo país podem ser muito mais seguros para a provisão de energia. O relatório [r]evolução energética, lançado em 2007 pelo Greenpeace, já propunha a descentralização da geração e da distribuição de energia, gerada por fontes renováveis, ao invés de se investir em grandes hidrelétricas ou usinas nucleares.”

A afirmação é estranha na boca de alguém especializado em energia. Parece que Baitelo está confundindo lé com cré.

O ponto é o seguinte: o sistema de transmissão interligado é em si uma medida de segurança e confiabilidade para o sistema. Há pelo menos duas razões principais para isso. Com o sistema todo interligado é possível restabelecer ou levar a energia aos locais atingidos pela falha de equipamentos, como ocorreu de terça para quarta.

Trata-se de uma questão de lógica. Como toda usina, em condições normais, trabalha um pouco abaixo da sua capacidade máxima, as usinas em conjunto podem atender uma região maior do que elas normalmente atendem.

Pelo mesmo motivo, é difícil encontrar o final da linha de distribuição de energia em uma cidade. Ele é estruturado, não por acaso, em forma de rede. Se a energia é incapaz de chegar por um lado, basta ligar uma chave e ela pode chegar por outro. Quando se tem redes de transmissão interligadas, se obtém resultado similar.

Agora imagine um local que é abastecido apenas por uma linha de transmissão. Se houver um problema naquela linha, a energia só será restabelecida quando a linha for consertada. Agora imagine que alguém cometa um ato de vandalismo contra uma linha de transmissão neste local, como uma bomba (como já ocorreu no Brasil), por exemplo. Aquela comunidade ficará sem energia até que uma nova torre seja construída e um novo meio de transmissão de energia provisório seja construído. Absurdo? OK, então imagine que um raio cai sobre o cabo de energia e o rompa. Isso acontece frequentemente nas grandes cidades. Ou imagine que alguém corte errado uma árvore e ela caia sobre a linha de transmissão, como ocorreu na cidade de São Paulo, no inverno de 2003 ou 2004?

Quando se fala em energias renováveis, a questão da interligação é ainda mais importante. Não é à toa que na Europa e nos Estados Unidos, um dos pontos mais quentes do debate relacionado ao setor energético é exatamente a construção de mais linhas de transmissão (e mais “inteligentes” também, mas isso é assunto para outro post) e não menos linhas como o Greenpeace sugere.

Na Europa, por exemplo, estuda-se inclusive a interligação da rede elétrica do Velho continente, incluindo os países nórdicos com seus fortes ventos, com o norte da África, que cedo ou tarde será uma fonte confiável de energia solar.

Parece que Baitelo se confunde entre o conceito de geração distribuída e a questão da confiabilidade da rede. O conceito de geração distribuída é muito interessante. Quem o idealizou foi um tal de Thomas Edison. O detalhe que é Edison o idealizou com base na tecnologia que defendia na época: a corrente contínua de baixa voltagem (por questões de segurança, segundo ele) e pequenas centrais elétricas.

Porém, embora Edison tenha triunfado e entrado para história com a lâmpada incandescente, ele perdeu no que ficou conhecido como a Guerra das Correntes. O lado vitorioso foi o de Nikola Tesla, que hoje empresta o sobrenome ao fabricante de veículos elétricos mais bem-sucedida do momento, que, ironicamente, usa a corrente contínua para levar a energia da bateria ao motor.

A Guerra das Correntes é pouco conhecida, mas é um marco da tecnologia pós Revolução Industrial. Para se fazer um paralelo moderno, pode-se pensar na disputa comercial entre mainframes e PCs há 30 anos, ou em uma escala muuuuuito menor a disputa entre os sistemas Beta e VHS.

Os dois lados estavam sendo apoiados por empresários com muita grana. Do lado de Edison estava ninguém menos do J. Pierpont Morgan (para os menos habituados com finanças qualquer semelhança com o uma vez mítico banco J. P. Morgan não é mera coincidência). Do lado de Tesla, estava George Westinghouse, empresário que inventou o freio pneumático para trens.

Durante a disputa, Edison chegou a convencer o serviço carcerário de Nova York a usar a corrente alternada para realizar execuções de condenados apenas para corroborar um de seus argumentos: de que a corrente alternada era perigosa.

Mesmo usando este tipo de expediente, Edison perdeu, simplesmente porque a corrente alternada, com a tecnologia daquela época, era uma opção mais interessante do ponto de vista econômico e social, uma vez que grandes usinas poderiam fornecer energia elétrica para toda uma cidade e não apenas para pequenas áreas como propunha Edison (o primeiro sistema de Edison foi instalado perto de Wall Street).

Há duas provas cabais da superioridade das redes de transmissão. Uma é que a própria GE (que nasceu da empresa de Edison) adotou a corrente alternada. A segunda é que a associação dos enegenheiros norte-americanos considerou o sistema de distribuição de energia o avanço tecnológico mais importante do século XX.

A vantagem do sistema de geração distribuída é que com um grande número de usinas interligadas, a sociedade fica menos sujeita a um problema sério em uma grande usina. Porém, para este benefício gerar frutos práticos, é fundamental que elas estejam interligadas, caso contrário o problema fica ainda mais grave. No Brasil, a geração distribuída avança rapidamente nas chamadas pequenas centrais hidrelétricas (com potência de menos de 30 MW, Itaipu tem cerca de 14.000 MW) e com a energia excedente das usinas de cana-de-açúcar.

O problema que deu esta semana é raro, mas pode ocorrer ocasionalmente. Pode-se evitá-lo? Com a tecnologia atual ainda não. Mas pode-se reduzi-lo consideravelmente. Porém aumentar muito a redundância do sistema é caro e quem vai pagar a conta, no final, somos nós. Vale falar também, que outras empresas que dependem fundamentalmente de energia, como as concessionárias d abastecimento, devem ter, elas próprias, um sistema de back-up mais eficiente.

Por último, mas não menos importante, vale lembrar que o tempo que levou para restabelecer a energia na maior parte do sistema foi relativamente curto para o tamanho do problema. A maioria das distribuidoras tem entre 4 e 6 horas para resolver problemas simples de falta de energia nas cidades. Quando se fala em cerca de 20% da carga do país, ter recuperado isso em cerca de cinco horas é um resultado bom.

Para quem não está satisfeito, vale a pena ficar atento à próxima conta de luz ao indicador DEC – que indica quantas horas o cliente ficou sem energia – e se ele superou ou não o máximo permitido pela Aneel, número que também deve estar na conta.

E também vale a pena ficar atento ao monte de bobagens que está se dizendo por aí. Como no caso do Greenpeace. Que não passa de oportunismo em defesa de uma causa nobre – as energias renováveis –, mas que foi exposta de um jeito que, na melhor das hipóteses, é ingênuo.

Leia abaixo a ínterga do artigo do Greenpeace:

Energias Renováveis: uma luz no debate do apagão

Por Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energias renováveis do Greenpeace

O assunto do dia em todo o país, e até no exterior, é o blecaute que deixou 18 Estados e o Distrito Federal no escuro ontem. A discussão sobre o sistema de abastecimento energético brasileiro está em todas as TVs, na internet, nas escolas, nos bares. Enfim, em cada esquina pipoca um palpite sobre o apagão. A oportunidade é para uma análise mais ampla do que realmente está acontecendo no setor, além da tão debatida vulnerabilidade do sistema de transmissão integrado.

O Sistema brasileiro de eletricidade (Sistema Interligado Nacional) é formado por empresas regionais de geração e distribuição, que possibilitam que a energia gerada em Itaipu seja enviada para as demais regiões país. Então, quando acontece um acidente em pontos críticos da linha de transmissão, como o de ontem, várias regiões podem ser atingidas.

As usinas nuclear Angra I e II são ligadas a esse mesmo sistema e ontem também tiveram que ser desligadas. Elas ainda permanecem desligadas e a retomada da operação pode durar dias. Para suprir a demanda de energia nuclear foram acionadas quatro usinas termelétricas, processo de geração com alto nível de emissão gases do efeito estufa.   

Uma discussão mais profunda do problema começa pelo fato da transmissão centralizada ser fruto de um sistema de geração também centralizado e passa, obrigatoriamente, pelas mudanças climáticas.

Sistemas de geração e transmissão menores e distribuídos pelo país podem ser muito mais seguros para a provisão de energia. O relatório [r]evolução energética, lançado em 2007 pelo Greenpeace, já propunha a descentralização da geração e da distribuição de energia, gerada por fontes renováveis, ao invés de se investir em grandes hidrelétricas ou usinas nucleares.

Esses núcleos energéticos poderiam gerar energia a partir de fontes renováveis. O potencial de geração renovável por novas fontes é enorme. Estima-se que a energia eólica poderia atender 20% da demanda energética nacional em 2050 e a geração de energia por diferentes formas de biomassa poderia representar 26% da matriz elétrica nacional neste mesmo ano. Hoje essas fontes representam menos de 5% da energia elétrica produzida no país. A geração eólica no Nordeste ou a cogeração a biomassa no Sudeste, com redes de transmissão menos dependentes poderiam ter reduzido o problema de ontem. Além de ter dispensado o uso das termelétricas.

A revolução energética brasileira, no entanto, está emperrada na Câmara dos Deputados. A consolidação de um mercado de renovável consistente só será possível com o estabelecimento de uma política nacional para energias renováveis. A proposta de um projeto de lei já existe. Foi redigida pela Comissão Especial de Energias Renováveis com contribuições do Greenpeace.

Alguns deputados, no entanto, não entenderam – ou não quiseram entender – a urgência do assunto e tentam atrasar a aprovação do projeto. O texto que poderia já estar no Senado, agora vai passar por discussão e votação no plenário da Câmara dos Deputados. Não há previsão de quando vai continuar seguindo o seu curso normal.

Às vésperas de um novo acordo climático, em Copenhague, que limitará as emissões de gases de efeito estufa de todos os países, e logo após o maior apagão da história do país, é preciso repensar o nosso modelo energético atual e, principalmente, os investimentos do setor no futuro. “

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Este post foi publicado sexta-feira, 13 de novembro de 2009 às 09:21 e colocado na categoria Conexões, Energia, Geral, Gosma Máxima. Você pode seguir os comentários à este post pelo RSS 2.0 feed. Você também pode deixar um comentário abaixo. Pinging não é possível neste post.

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