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nov

Auto-suficiência em alimentos


Talvez nos próximos dias você leia em algum jornal artigos ou reportagens sobre auto-suficiência na produção de alimentos. Quem é leitor do FT, já pode ler agora mesmo. Provavelmente, nenhum país do mundo se mostrará auto-suficiente em alimentos se alguém for olhar os dados da balança internacional. Isso aplica-se tanto a bens básicos, como cereais, quanto a supérfluos.

Um dos pontos interessantes da questão da auto-suficiência em alimentos é que ela se confunde com a auto-suficiência em energia. Algo que também não existe no mundo, quando se olha os dados do comércio internacional. Embora diversos países, notamente os grandes produtores de petróleo e gás sejam exportadores líquidos de energia. Aqui vale lembrar duas coisas. A primeira é que quando se fala em auto-suficiência o que realmente está querendo dizer é segurança (de fornecimento e de preços). A segunda é que, em última instância, alimentos e energia são a mesma coisa.

Para ilustrar a questão um singelo exemplo brasileiro. Embora o governo garanta que o Brasil é auto-suficiente em petróleo, nós ainda importamos gás natural (embora a Petrobras queime um volume razoável de gás em seus campos), gás liquefeito de petróleo (GLP, o gás de cozinha) e diesel.

No artigo do FT, um executivo da Cargill diz que a auto-suficiência em alimentos não faz se sentido e não é sustentável. Curioso notar que ele está certo, por mais deprimente que seja a ideia de que uma nação não é capaz de alimentar a si própria.

Porém, esta realidade deve ser considerada um fato em apenas dois casos, enquanto um terceiro deve ser abordado de outra forma. Os dois casos que são fato são:

:: Alguns países do mundo, principalmente os asiáticos não tem terras disponíveis ou clima para produzir alimentos em quantidade suficiente para sua população. Esses países dependerão, fundamentalmente de importações.

:: Bens de primeira necessidade que um país não é capaz de produzir, por questões climáticas e adaptativas, principalmente. é o caso do trigo no Brasil.

O terceiro ponto que deve ser deixado de fora da discussão é reduzir a desigualdade tecnológica no campo. E aqui não estamos falando apenas de tecnologia de ponta como tratores equipados com GPS e biotecnologia. Também é necessário pensar no básico, como fertilizantes, conhecimento sobre tratos culturais e ferramentas básicas.

Este é o caso da África, por exemplo. Existe uma grande capacidade de produção de alimentos na África que ainda não é usada. Em grande parte porque os pequenos agricultores africanos praticam uma agricultura com séculos de atraso.

Mesmo quando se pensa mais profundamente no segundo ponto que dificulta a auto-suficiência em alimentos, pode prever que algumas barreiras climáticas serão quebradas em alguma momentos das próximas duas décadas, quando deve surgir no mercado sementes transgênicas mais resistentes à seca e a outros tipos de estresses.

Ainda neste sentido, talvez o melhor exemplo do mundo seja a soja no Brasil. Cuja adaptação a latitudes cada vez menores foi uma conquista de pesquisadores brasileiros que fez com que o país se tornassem um dos maiores produtores mundiais.

Outro ponto, o quarto que precisa ser avaliado, é a questão econômica. Simplesmente, em grande parte dos casos, a importação de alimentos é uma decorrência de um fato econômico simples de compreender: preço (e portanto custos de produção). O fato do Brasil exportar navios e navios de soja para a China – de onde veio o grão – é a maior prova disso. Hoje, o Brasil tem um dos menores custos de produção de soja do mundo, ao menos dentro da porteira da fazenda.

Ou seja, se ao invés de país pensássemos em pessoas ela estaria diante daquela situação: o que é mais barato: produzir o arroz e o feijão que minha família vai consumir, ou comprá-lo no mercado? A grande maioria das pessoas hoje sequer pensa na primeira opção, mas ela está a disposição de quem tem uma disponibilidade de terra mínima. Porém, a questão é que para ser economicamente viável, essa pessoa precisa trabalhar, ou pagar alguém para trabalhar, naquele pedaço de terra. E aí talvez fique claro que comprar o arroz e feijão no mercado seja algo muito mais atrativo economicamente.

A questão na se encerra nesses quatro pontos. Infelizmente ela é muito mais complexa do que parece. E, para quem quiser fazer o exercício, vale a pena começar a relacionar apenas esses quatro pontos para ver como a decisão de produzir alimentos pode ser complexa.

O pano de fundo para tudo isso é que em grande parte da África subssariana, as pessoas chegam a gastar 80% do orçamento com alimentos, enquanto no mundo desenvolvido este número não passa de 10%. Logo, oscilações nos preços dos alimentos são fatos que podem ocasionar instabilidade política. E quando se considera este ponto, é preciso considerar que isso também tem um preço que deve ser considerado na tomada de decisão. Pode até ser mais caro produzir localmente ao menos parte dos alimentos, mas isso ajuda países pobres a serem mais estáveis.

O resumo da ópera é o seguinte: por mais que a auto-suficiência em alimentos seja algo utópico para alguns países (felizmente o Brasil não é um deles) é saudável, bastante saudável que cada país nesta situação produza o máximo de alimento possível para seu povo.

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Este post foi publicado terça-feira, 10 de novembro de 2009 às 10:09 e colocado na categoria Alimentação, Geral, Uso da Terra. Você pode seguir os comentários à este post pelo RSS 2.0 feed. Você também pode deixar um comentário abaixo. Pinging não é possível neste post.

Uma resposta para “Auto-suficiência em alimentos”

  1. jessica diz:

    queria simplesmente saber se realmente o brasil é auto suficiente em alimentos!
    algo mais objetivo e bem explicado
    obrigada.

    15 de novembro de 2010 às 12:52

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