09
out
Nobel da Paz Obama, ou prêmios na Era dos Objetivos
Tem coisas que são difíceis de entender. O Nobel da Paz para Barack Obama é uma delas. A justificativa oficial do prêmio é pelos “esforços extraordinários que ele fez para fortalecer a diplomacia internacional”. Como bem notou o colunista do Financial Times Gideon Rachman “é OK dar prêmios às crianças nas escolas por esforço, mas homens de estado internacionais deveriam ser considerados em um outro patamar”. Assino embaixo.
Logo que saiu o prêmio colocamos no Twitter o seguinte: “Em um dia Obama se recusa a reduzir as tropas no Afeganistão, em outro ganha o Nobel da Paz. Faltam candidatos? Que saudade da madre Teresa”.
Isso para não falar das tropas no Iraque, da base na Colômbia e de tantas outras “medidas de paz” que o governo dos Estados Unidos tem adotado recentemente. Enfim, os Estados Unidos são uma nação em guerra. Melhor teria feito o comitê do Nobel se não tivesse dado o prêmio a ninguém, como fez durante a I e II Guerras Mundiais.
Ao premiar os esforços o comitê do Nobel corre o risco de morder a língua, como já fez outra vez. Acho que o caso mais emblemático foi do prêmio dividido entre Yasser Arafat, Shimon Peres, Yitzhak Rabin em 1994. Bom, desnecessário dizer que a paz continua um objetivo distante no Oriente Médio.
Mas o Nobel tem outros casos estranhos. Gandhi nunca ganhou o prêmio, apesar de ser indicado cinco vezes. Por outro lado, Henry Kissinger, o polêmico secretário dos Estados Unidos, ganhou o prêmio em 1974 pela assinatura do acordo de paz da Guerra do Vietnã. O detalhe é que em 1969 foi a caneta de Kissinger que autorizou os bombardeios no Camboja. Bom diplomata que era, Kissinger disse sobre o prêmio que “ele simboliza mais a busca pela paz do que conseguir a paz”.
Controverso como ele é, o Nobel deste ano parece estar totalmente alinhado com o que poderia ser chamado de a Era dos Objetivos. Nada é para agora, tudo pode esperar cinco, dez, ou 20 anos para ser alcançado. É o caso dos objetivos do milênio, das metas para estancar o aquecimento global, o fim do analfabetismo, o desmatamento da Amazônia e tantos outros objetivos definidos por entidades internacionais, multilaterais, governos e afins que fazem com que os problemas se perpetuem ao invés de serem solucionados.
Obama não merecia o Nobel da Paz, como nenhum outro presidente de nação em guerra deve merecer. Mas o comitê achou que ele está se esforçando por este objetivo. E aí a frase de Kissinger cai como uma luva para o presidente pop norte-americano.
Mas, no fundo, é triste ver que estamos premiando pessoas que não merecem ser premiadas porque elas estão tentando fazer o que é somente correto, que é dever de todos. Enquanto isso os analfabetos, as vítimas do aquecimento global, os famintos, entre tantos outros, aguardam um legítimo Nobel da Paz ou, simplesmente, alguém que resolva ao menos localmente os problemas.
Diante deste quadro, o melhor que Obama poderia fazer é seguir a trilha do político vietnamita Le Duc Tho, que recusou o prêmio que iria compartilhar com Henry Kissinger. A justificativa de Tho foi simples e honesta: a situação do meu país me coloca em uma posição que não permite eu receber o prêmio Nobel da paz.
Em tempo: dentro deste contexto vale lembrar duas frases de madre Teresa de Calcutá, prêmio Nobel da Paz em 1979. Merecidíssimo.
- “O que eu faço é simples: ponho pão nas mesas e compartilho-o.”
- “Sei que o meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor.”
Receba as notícias do Blog da Terra em seu computador, assine nosso feed por este link. Se preferir receber por email, assine nossa Newsletter diária gratuita (campo na barra lateral). Você pode seguir o Blog da Terra com o Twitter.
Notícias relacionadas:
- Obama e Copenhaguem Quem se surpreendeu com o anúncio do presidente norte-americano Barack Obama sobre as negociações de...
- Prêmios Nobel para a compreensão da genética Os ganhadores dos prêmio Nobel deste ano em medicina e química destacaram-se pelas pesauisas realizadas...
- Novo padrão de consumo para os carros nos Estados Unidos, ponto para Obama Obama elevou a autonomia média dos veículos nos EUA e saiu como herói de uma...
- Obama opta pela saída pela esquerda na área de energia Obama optou pela limitação das emissões e negociação de créditos de carbono....
- Orçamento de Obama para agricultura e energia O orçamento de Barack Obama está recheado de ações amigáveis ao clima....
- Uma palestra de Steven Chu, novo secretário de Energia dos Estados Unidos Que o novo secretário de energia dos Estados Unidos, Steven Chu, ganhou o Nobel de...
- De James Hansen para Barack Obama O cientista da Nasa James Hansen escreveu uma carta aberta ao presidente eleito dos EUA,...
Este post foi publicado sexta-feira, 9 de outubro de 2009 às 10:15 e colocado na categoria Bússola, Conexões, Geral. Você pode seguir os comentários à este post pelo RSS 2.0 feed. Você também pode deixar um comentário abaixo. Pinging não é possível neste post.
Realmente o Prêmio Nobel da Paz Obama nos parece bem político. Coisas estranhas devem estar nos bastidores. Colocar em um mesmo saco, Barak Obama e Madre Tereza é no minimo hilariante.
10 de outubro de 2009 às 07:56