08
abr
Reações de mercado na agricultura e na energia em tempos de sustentabilidade
Em tempos de keynesianismo ululante por parte de grandes agentes do mercado (bancos, montadoras etc), vale lembrar que o mercado tem lá suas virtudes. E também seus defeitos. Há dois bons exemplos na praça relacionados à sustentabilidade. Pelo lado positivo, temos as sementes transgênicas. Pelo negativo, temos as empresas de petróleo.
Estudo divulgado ontem pelo Cepea, ligado à USP, mostra que a introdução do milho transgênico deve criar um prêmio para a produção de milho convencional. Este fator deve-se em parte à campanha de décadas contra os produtos transgênicos liderada por ambientalistas, que teve relativo sucesso em definir na cabeça do consumidor final que os alimentos geneticamente modificados podem afetar a saúde.
Antes de continuar dois pequenos parênteses. O primeiro a respeito do sucesso da campanha dos ambientalistas. O sucesso é relativo porque as pessoas não sabem ao certo o que são os transgênicos e porque eles são criticados. Prova disso é que você pode estar comendo uma pipoquinha, ou ter se deliciado com aquela batata frita do almoço feitas com óleo obtido de grãos geneticamente modificados. Enfim, há medo, mas não há conhecimento (pela maior parte da população) para justificar este medo. (Se você discorda dessa afirmação responda rápido: Por que transgênicos são ruins e pesquisas com células-tronco são boas?)
O segundo parênteses é sobre a possibilidade deles afetarem a saúde. Aqui a ciência virou aquele campo de batalha similar ao da Primeira Guerra Mundial. Cada lado em sua trincheira e no meio é lama e arame farpado. Uns atiram dizendo que os transgênicos podem causar de unha encravada a infertilidade. O revide do outro lado vem dizendo que não há prova científica que prove as acusações.
Mas o fato interessante para o tema deste post é que a própria introdução dos transgênicos gera uma espécie de salvaguarda (sem falar nas demais, previstas na legislação) para uma das desvantagens apontadas pelos críticos desta tecnologia: o domínio do campo pela empresas que produzem sementes transgênicas.
O ponto é o seguinte: ao criar um prêmio para as variedades tradicionais, reduz-se o interesse de parte dos produtores em produzir transgênicos. Consequentemente, a introdução desta tecnologia está beneficiando não só os agricultoress que adotaram os transgênicos (se não tivesse vantagem, eles não adotariam anota o estudo da USP) como também os que cultivam espécies tradicionais, porque estes acabam recebendo um preço maior pela sua produção. De forma irônica, ambientalistas e empresas de biotecnologia acabam do mesmo lado da cerca graças a um novo mercado criado por ambos (mudanças nas características da oferta por parte das empresas de biotecnologia e alteração na demanda gerada pela campanha negativa relacionada a esta tecnologia).
Claro, há muitos outros fatores a se pesar nessa história que vão além dos aspectos econômicos. Mas, como mostra mais claramente o exemplo a seguir da área de energia, as forças de mercado são muito mais poderosas do que o debate econômico ad naseum sobre a intervenção do estado na economia pode indicar.
O mercado global de energia é dominado por um número muito pequeno de empresas públicas e privadas. Mais um pequeno parênteses: a empresas de energia são várias vezes maiores do que as empresas da área agrícola (agribusiness, ou agronegócio, como queiram). Enquanto há 16 petrolíferas entre as 100 maiores empresas do mundo, não há uma empresa sequer da área agrícola como ADM, Cargill, ou Monsanto.
Voltando. Na área pública destacam-se a Saudi Aramco, Pemex, Gazprom e Rosneft (da Rússia), as duas petrolíferas chinesas (CNOOC e CNPC), a PdVSA (da Venezuela), outras empresas públicas do Golfo Pérsico e para citar o Brasil, a Petrobras, que é de economia mista e deve aumentar sua importância no cenário internacional ao longo da próxima década.
Na parte privada, temos a Lukoil na Rússia, ExxonMobil, Chevron, Shell, BP, Total, ConocoPhilips e ENI. Nenhuma delas está comprometida com as energias renováveis. Embora a maioria afirme que tem interesse no setor, o número de investimentos na área e mesmo a participação das energias renováveis na receita é porcentualmente menor do que a média global. Interessante, não?
Há duas razões para isso. A primeira é o preço da energia que atraia essas empresas a investir neste sentido. Energia renovável (ainda) custa mais do que fóssil; ponto final. A maior parte delas está chegando à conclusão de que dentro do setor de energia renovável, o naco que interessa é o de biocombustíveis. Isso ocorre porque é a parte das energias renováveis que está mais próxima do negócio principal dessas empresas que é produzir e distribuir líquidos combustíveis ao redor do globo.
Porém, mesmo o investimento em biocombustíveis dessas empresas é marginal. Tanto quando se analisa em relação ao portfólio de investimento de cada uma (ou do setor como um todo), quanto quando se analisa o investimento em energias renováveis (aproximadamente 10% do total investido nos EUA, por exemplo).
O segundo motivo é que o mercado ainda não cobra o preço pelo passivo dos combustíveis fósseis, eles continuam a ser mais baratos do que qualquer alternativa que leve em conta o benefício ao planeta. Financeiramente falando, sem contabilizar no fluxo de caixa dessas companhias o custo de limpeza do carbono da atmosfera, os combustíveis fósseis continuarão a deixá-las à margem do investimento em energias renováveis (e o mundo à margem do colapso climático). Ou seja, o mercado por si só não é capaz de resolver o problema. Ele requer alteração profunda no marco regulatório.
Trocando em miúdos é o seguinte. Há cerca de 150 anos quando a tecnologia de exploração e refino de petróleo começava a nascer, ninguém se preocupou muito com o que aconteceria. Situação muito diferente da enfrentada pela biotecnologia que dia sim outro também, tem que provar que é segura. Para lidar com o resto, até que o mercado manda bem.
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Tags: Agricultura, agronegócio, biotecnologia, mudança climática, petróleo, preço, transgênicos
Este post foi publicado quarta-feira, 8 de abril de 2009 às 11:10 e colocado na categoria Alimentação, Conexões, Energia, Geral, Uso da Terra. Você pode seguir os comentários à este post pelo RSS 2.0 feed. Você também pode deixar um comentário abaixo, ou trackback do seu próprio site.